Mostrando postagens com marcador Literatura de Quinta. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Literatura de Quinta. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Literatura de Quinta, por Adriane Dias Bueno




GUERRA E PAZ
E então fez-se a paz
mesmo quando quisera a guerra.

Esforços não mediu, com seu gélido espírito,
ao usar de forma sutil todas as palavras
que até então calcara em sua boca.

Mas o espírito sereno, mesmo prevendo
a proximidade da batalha,
com seu conformismo prático não sucumbiu.

Então percebeu que a paz vencera,
mesmo quando quisera o combate.

E a guerreira, a espada inerte na mão
em sua bainha introduziu.
Não haveria luta em nenhum dia,
pois o gentil homem não disputaria
com ela para vencer a loucura.

Então fez-se a lágrima,
que teimosamente não caiu.

Percebeu que pela estrada a fora
sua árdua e lúgubre luta, solitária seguiria.
Não haveria ninguém que desejasse
vencer os tristes e lúcidos argumentos dela.

Então desfez-se o mundo
em sombrio e dolorido silêncio.

E a guerreira, por fim, partiu
para travar suas insólitas guerras,
já resignada com a perda
de sua última sentinela.

_______

Adriane Dias Bueno nasceu em Rio Grande/RS, é casada e exerce a profissão de advogada. Participou de diversas Antologias da Ed. CBJE entre 2010 e 2012. Participou com “Crônica Transitiva”, na Edição nº 34, da Revista Samizdat, e com o poema “Multiplamente”, na Edição nº 36, desta mesma Revista Eletrônica. Publicou dois livros: “Casa de Ventos e Sussurros”, CBJE, 2010, e “Estranhamento”, Ed. Scortecci, 2012. Tenta rabiscar em dois blogs: www.avessasingularidade.blogspot.com.br e www.br392.blogspot.com.br. Pretende escrever por toda a vida.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Literatura de Quinta, por Pedro Porciúncula



Autoautoajuda
As alunas não vieram
E eu mato tempo escrevendo

Ganhando ânimo
achando que um dia
vou escrever algo
que vá mudar a vida de alguém
como os escritores de verdade fazem

Aprendi que a poesia não precisa de rima

Aprendi que para escrever poesia
tu precisas é de um par de bolas
seja no teu peito
ou que fiquem alojadas lá embaixo
entre as pernas

Eu não sei rimar

Mas tenho bolas
Ou pelo menos enfio a cara e espero o tapa
o soco e o chute
de olhos abertos

____

Pedro Porciúncula - Natural de Rio Grande, RS, sou escritor, sem saber, desde 2005/2006, época em que comecei a escrever meus primeiros contos, travestidos de “Históricos de Personagens” para RPG, mas passei a ter consciência dessa habilidade em 2010, quando, após um sonho inspirador, criei o meu blog, o Anarchy Ink. Desde lá tenho mais de 100 publicações no mesmo, onde mesclo influências, principalmente André Vianco (o responsável por me atirar de cabeça no mundo da literatura), Charles Bukowski e o rock n’ roll, na busca de encontrar um estilo próprio. Além do Blog, participei de alguns varais de Poesia da Prefeitura Municipal de Rio Grande e fui coordenador do primeiro livro do grupo do facebook “Poetas de Pijama da FURG”, ao lado de Mayara Floss, lançado na 40ª Feira do Livro da Furg.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Literatura de Quinta, por Vanessa Regina



Sunflowers

haverá um tempo
em que os girassóis
suprirão as ausências e as tempestades
e  daremos as mãos
pétalas entreabertas
de um amarelo recomeço
e nada mais temeremos,
porque os girassóis
- a poesia em flor-
nos darão abrigo

e não mais sentiremos fome. 

 ________




Vanessa Regina, alegretense, é Mestranda em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande (FURG) e tem poemas publicados em jornais, participação em coletâneas, além de premiações em concursos literários. Quando o jazz toca o coração, deságua no blog Na Ponta da Língua. Escreve para organizar o caos e pensa que o mar não deveria ser azul.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Literatura de Quinta, por Adriane Dias Bueno



MARGINAL

“A vontade que eu tenho mesmo é jogar tudo pro alto. Acabar de vez com tudo e me entregar a marginalidade. Esquecer as regras, me tornar um pária, agarrar a metralhadora e sair disparando contra tudo e todos. Largar esse trabalho, com seu sorriso diplomático forçado para agradar senhores e senhoras, onde tenho que ser educado pra não levar um chute no traseiro do patrão. Vender cultura. De que adianta? A maioria nem educação mostra quando vem aqui para comprar.

Então, a vontade que tenho é essa. E porque não? Seria uma alternativa. Uma vida marginal, distante de formalidades, de concepções preconceituosas sobre o que é bom ou ruim, sobre o que tenho que fazer ou dizer para agradar a quem quer que seja.

Até já me vejo na Praça Dr. Pio, perto do eucalipto mais antigo do Estado, ou na Xavier, perto do chafariz, ou na Tamandaré, em frente ao monumento ao herói farroupilha, disparando a metralhadora, tirando três ou quatro notas dela, desafinadas, gritando umas palavras meio loucas, mas que a multidão ia gostar. Vejo meu filho, meu piá, com uma faixa na testa, segurando o cabelo levemente comprido, de bermudas e camiseta, cantando junto ou dançando, fazendo a platéia sorrir de sua ingenuidade. E a minha guria, a mulher da minha vida, me acompanhando com o chapéu na mão para arrecadar o que quisessem me dar pelos disparates ou verdades que eu metralhasse.

E pra completar, eu venderia versos por cinqüenta centavos, rabiscados a pressa em uma folha meio amassada de um caderno qualquer que eu tivesse a mão, versos mal escritos para quem não os entendessem, versos bem escritos para quem soubesse ler. Poesia de primeira ou quinta categoria, odiada por ultrapassar as margens confinantes do papel, amada por expor a fealdade do mundo real.

Mas para as velhinhas simpáticas, aquelas que ficam nas praças por causa da sua solidão, ou para os mendigos, eu doaria meus textos mais belos, as minhas músicas estropiadas e desafinadas, contudo singelas. E para as crianças, eu pintaria desenhos estranhos sobre astronaves e seres de outro mundo ou de seus heróis preferidos.

Eu seria expulso das praças várias vezes por não ter o devido registro, mas sempre voltaria. Eu seria uma praga, um desconforto, um louco, um bandido. Mas eu viveria disso, dessa vida e escrita de artista marginal. Talvez isso fosse melhor do que ficar sorrindo como um boçal, num emprego que, se paga as contas, não alimenta o coração, não satisfaz a mente, nem estimula a compaixão”.

Então Marília gritou: “A comida tá na mesa. Vem senão vais te atrasar”.

Ele baixou a cabeça, sorriu triste e desligou a filmadora. Agora iniciaria sua encenação.

_______

Adriane Dias Bueno nasceu em Rio Grande/RS, é casada e exerce a profissão de advogada. Participou de diversas Antologias da Ed. CBJE entre 2010 e 2012. Participou com “Crônica Transitiva”, na Edição nº 34, da Revista Samizdat, e com o poema “Multiplamente”, na Edição nº 36, desta mesma Revista Eletrônica. Publicou dois livros: “Casa de Ventos e Sussurros”, CBJE, 2010, e “Estranhamento”, Ed. Scortecci, 2012. Tenta rabiscar em dois blogs: www.avessasingularidade.blogspot.com.br e www.br392.blogspot.com.br. Pretende escrever por toda a vida.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Literatura de Quinta, por Matheus Bandeira



Vai um café?


_ Dois cafés, por favor.
_ Então, Zé, me conta, o que aconteceu?
_ Aconteceu o pior, meu amigo, a Zélia me deixou.
_ Não brinca!
_ Depois de tanto tempo juntos, nos amando todos os dias, nos querendo mais e mais, ela fugiu de casa.
_ Como assim?
_ Cheguei, depois do trabalho, e achei um bilhete dela, contando que tinha ido embora com o Marcão, da padaria.
_ Aquele canalha!
_ Nem me fala, meu amigo! Depois fiquei sabendo que todos os meus amigos já tinham deitado com ela, enquanto ainda estava comigo.
_ Mas que cafajestes!
_ O Marcão era meu amigo. Não tanto quanto tu, mas era. Comprava há anos na padaria dele. Tinha conta e tudo.
_ Sim, vocês estavam sempre juntos, aos finais de semana. Eu lembro disso.
_ Pois é... Garanto que foi num desses finais de semana que minha bela Zelinha se apaixonou pelo “baguetão!”
_ Mas não pense nisso, meu amigo. Ainda têm muitas mulheres por aí. A Solange do salão da esquina arrasta uma asa para ti. Eu já percebi.
_ Não, meu caro. Não quero mais ninguém. Agora vou continuar assim por um bom tempo.
_ Mas, meu amigo, é pior ficares assim. Já estás há dias enclausurado na tua casa.
_ Eu prefiro assim. Tenho dívidas a pagar e hei de liquidá-las.
_ Mas que tantas dívidas?
_ É que, enquanto a Zélia e eu éramos casados, eu comprava tudo fiado na padaria. Agora vou ter de pagar. A Zelinha até deixou o número da conta do baguetão para eu depositar.

Silêncio profundo.
_____

Matheus Bandeira é formado em Direito, atua como sócio no escritório Alves, Alves e Carvalho Advocacia e trabalha na Prefeitura Municipal do Rio Grande. Amante de MPB, de uma boa roda de amigos e risadas, gosta, bastante, de discussões literárias e viaja, quase que literalmente, nas obras de escritores brasileiros. Desde cedo desenvolveu o gosto, se é que se pode dizer assim, por escrever, porém, de jeito nenhum, considera-se escritor. Segundo ele, é “apenas um cara que gosta de escrever”. Blog: Matheus Bandeira, Captando Palavras (http://www.matheusbandeira.blogspot.com.br/), Página de Facebook: Matheus Bandeira – escritas (http://www.facebook.com/pages/Matheus-Bandeira/552317508132445).

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Literatura de Quinta, por Mayara Floss


O passarinho


Certo dia ganhei um passarinho numa gaiola. Olhei bem o passarinho colorido e decidi abrir a gaiola, não fazia sentido ele viver ali. Fiquei observando. Quando voltei a noite o passarinho ainda estava na gaiola, acho que se assustou com a liberdade. Tentei tirá-lo da gaiola, fez um voo desajeitado e ficou nitidamente irritado comigo. Sai e deixei a gaiola ali, e o passarinho livre. No outro dia de manhã tinha um ninho dentro da gaiola. O passarinho cantou olhou para mim e voou até um poste próximo, depois voltou com mais um pedaço da sua casa, parecia feliz. Construiu seu ninho ali, o passarinho não entendia a liberdade. Pendurei a gaiola no quintal, bem longe da minha agitação. Em baixo de uma árvore. E ele ficou lá, construindo seu ninho em baixo dos galhos da árvore, preferindo a gaiola. Passarinho eu pensava, porque fazes isso? Depois pensei que é mais fácil viver olhando sempre para o mesmo lugar, seguindo o mesmo caminho. Qualquer dia ele vai partir, assim espero. Nem que seja para uma gaiola maior. 

______

Mayara Floss é acadêmica de medicina na Universidade Federal de Rio Grande e também escritora. Em 2009 lançou o livro de poesias “Falta um poema...”, em 2012 o livro “Fôlego” de poesia e fotografia e participou da organização e editoração junto com Pedro Porciúncula do livro “Poetas de Pijama”. Desde 2009 tem o blog Entre-primos que desenvolve com o primo, o fotógrafo Fabiano Trichez. Toca violão e este ano está lançando com o violonista clássico Gilson Antunes os três livros com a temática do violão: “Violão”, “O menino e o Violão” (livro infantil) e “Canhoto - Rei do violão brasileiro” (peça de teatro).

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Literatura de Quinta, por Mitcheia Guma



Miniconto dos Sentidos II

Quando me tocas sinto como se minhas terminações nervosas estivessem [todas] em relevo! Não sei se estou à flor da pele ou se és tu quem assim me deixas... Até teu cheiro me arrepia! Gostos viram sons; toques viram cheiros; visão vira um carnaval de cores. E assim tu vais confundindo meus sentidos. E é bom... Tem vezes que, quando meu instinto percebe tua presença, me sinto como uma loba faminta em busca de seu alimento! Minha respiração acelera e, sorrateiramente, me escondo de ti, a fim de disfarçar o que meus olhos insistem em revelar: a fome que tenho de ti e que te quero! E ali, em meio aos meus devaneios torpes, misturados a minha razão que briga com esta pele que te espera sedenta, fecho meus olhos e mergulho em um silêncio que descarta os ruídos externos que me distraem... Deixo a mente viajar sem limites! E no ilimitado mundo dos meus desejos por ti satisfaço minha sede de maneira calma e frenética... Nesse instante tu és somente meu! Tua boca, teus olhos, teus músculos, tus ganas, tua força bruta e tudo mais que tens e que –paradoxalmente- me seca a garganta e me dá água na boca! E o que acontece lá é todo nosso...

______



Mitcheia Guma Pinto é Mestranda em História da Literatura e Graduada em Letras Português/Espanhol, ambos pela Universidade Federal do Rio Grande - FURG. Entre suas participações em Coletâneas estão os livros "Plural", "Poetas de Pijama" e "Sopas de Letras", onde contribuiu com contos e poesias. Mantém o bloghttp://psicodeliaereflexoes.blogspot.com.br/. Contato com a aspirante a escritora pelo e-mail: mitcheia@yahoo.com.br.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Literatura de Quinta, por Olmira Daniela da Cunha



Você está ignorando ou sendo ignorado?


A correria do dia-a-dia impede muitas vezes de olharmos o que acontece a nossa volta. Tudo parece incomodar: o relógio que voa,a criança pedindo moedas no semáforo,o idoso que passa a faixa de pedestres devagar demais e assim por diante. Se está no inverno:o frio.Se está no verão:o calor.Se está no outono:as folhas no chão.Se não consegue engravidar é o filho que não vem.Se é mãe é o filho que têm.É o atraso do ônibus,a fila no banco,o valor dos impostos,a loja que não tem na cidade,a conta do telefone,da luz,do aluguel,IPVA,supermercado...

É um tal de reclama daqui e não se resolve ali que parece não ter jeito e realmente não irá ter se você não olhar para o lado. Sempre há alguém em algum lugar em uma situação pior que a nossa.Enquanto reclamamos da enorme fila no banco pense em quem não tem pernas e queria tanto ficar de pé,enquanto reclama do filme que repete mil vezes na TV pense em quem não tem a visão e se contenta em apenas ouvi-lo,quem não ouve apenas vê as imagens,pense que você pelo menos pode pagar sua comida e quantos comem os restos na lixeira em frente a sua casa,Pense em quantas mulheres queriam ter um filho e são estéreis.Pense que ao pagarem ou não para ter um local para dormir,muitos tem como casa a marquise de algum edifício e como cobertor um pedaço de papelão.Se o relógio voa e você não olha para o lado ele continuará passando cada vez mais rápido.E o que você está fazendo? Ignorando ou sendo ignorado?
______



Olmira Daniela Schaun da Cunha é natural de Rio Grande-RS. Escritora, poeta e cronista, tem 5 Antologias publicadas: “Centenário do Nascimento de Jorge Amado”, “Emoções Repentinas”,"Novos poetas do Amor", " V Concurso Crônica e Literatura:Ferreira Gullar", "Festival Sertanejo de Poesia". Participa de 4 antologias de poesias e uma de crônica.Colunista no Jornal RJVerdade.. Tem dois livros no prelo e pretende lançá-los até 2014.Estará lançando sua mais nova Antologia ganha no Concurso Valdeck Almeida de Jesus na Bienal do Livro no Rio de Janeiro nos dias 29/08/2013 a 08/09/2013 na stand 27 no pavilhão verde do Rio-Centro na Barra da Tijuca.


quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Literatura de Quinta, por Pedro Porciúncula



"Algo que você não consegue entender" - O médico

            Chegou em casa depois de um dia desgraçado de trabalho. Eram sete da noite, mas, para a sua mente, estava mais para uma da manhã.
Abriu a porta de casa, que com o seu movimento, arrastou um pedaço de papel branco dobrado ao meio. Entrou, arrastando-o para dentro com o pé direito. Fechou a porta e se baixou para pegá-lo.
“Entregue”, ele leu ao abrir o bilhete. Estava escrito com letras recortadas de alguma revista.
Sentiu uma euforia. Estava revigorado. Contente, alegre, nas nuvens, deleitado e mais qualquer outro sinônimo, perfeito ou não. Sentiu que, apesar de ter sofrido durante o seu dia de trabalho na receita federal, ele veio a valer a pena.
Olhou para a sua casa. Não era um homem de grandes posses, apesar de ser médico. Tinha um bom emprego – era médico - mas a construção da casa e o seu estúdio nos fundos, foram responsáveis pela venda do carro, mas morava sozinho e a casa acabava por não render grande ônus. Era uma boa casa em um bairro mais afastado da cidade. Mas um bairro bom. Classe média alta. Grandes terrenos, grandes casas. A sua, no entanto, era a menor delas. Não se incomodava.
Sala e cozinha eram divididas apenas por um balcão, dando um aspecto semelhante ao de um bar, com os altos bancos de madeira, mas com almofadas no acento. Boas almofadas. Pretas. Não tinha carpete. Nem no quarto. Gostava, mas era mais difícil de limpar, fora que a poderia acabar manchando, quando algum líquido, por exemplo, caísse em cima. Por isso usava um piso flutuante de madeira clara. Um bege meio creme... Não sabia dizer ao certo que cor era aquilo. Simplesmente achou bonito e escolheu. Tinha uma mania de limpeza e tudo deveria estar impecável. Para não se martirizar, preferiu esse “atalho”.
A secretaria eletrônica, que estava em cima do rack, ao lado da televisão LCD de 32”, alertava para uma mensagem gravada. Apertou o botão para que ela tocasse, enquanto começava a se despir, desabotoando os primeiros botões da camisa vermelha, sua cor favorita.
- Oi, Gabriel... - Uma voz rouca e sedutora emanava do alto falante, fazendo aquele “oi” arrastado – aqui é a Patrícia. Vamos combinar algo? Me liga, viu?! Tens o meu número? 8407-845-42. Saudades. Aquele beijo!
Pensou “Patrícia?...”. Se deteve e pensou um pouco. Sorriu. “Ah, sim... Patrícia... Ôôôô Patrícia...”. Abriu um sorriso largo. Essa era uma loira com quem havia se deitado no fim de semana passado. Um espetáculo de mulher. Com roupa já era uma delícia. Sem então... Foi de difícil abordagem, mas assim que conseguiu, a festa foi feita, e o melhor, no apartamento DELA. Pernas longas e seios fartos e empinados. Não era silicone.
Entrou no banho e ali ficou por vinte minutos. Deixava a água morna bater com força em seus músculos doloridos de um dia cheio. Lembrou do bilhete. Abriu um grande sorriso. Desses de orelha a orelha. “Não foi mesmo um mal dia.”
Saiu do banho, pegou umas roupas velhas no guarda roupas e vestiu-as. Fazia calor e o dia fora lindo e ensolarado. Agora, a noite trazia uma maravilhosa e confortável brisa marítima. Sentiu isso ao abrir a porta dos fundos de sua casa. Atravessou o pátio e foi até o seu estúdio. Abriu a porta e entrou.

O estúdio é todo forrado com material isolante acústico e coberto por uma espécie de carpete preto, inclusive nas paredes. Tinha uma mesa de som com 10 canais, uma bateria, baixo, duas guitarras, três pedestais com um microfone em cada, um amplificador para cada guitarra e baixo, quatro caixas auxiliares para melhor distribuir o som dentro da peça junto com as vozes, e um armário de metal de duas portas.
E tinha uma banheira no meio do recinto.
Uma banheira, dessas antigas, branca e com patas douradas de ferro.
Gabriel caminhou vagarosamente até a banheira e viu que tinha uma jovem ali. Ela estava com as mão amarradas às costas, assim como os pés, que também estavam amarrados um no outro. Tinha um pedaço de pano servindo de mordaça na boca. Estava desacordada.
Foi até o armário de metal. Pegou um par de luvas, um par de sacos plasticos, um tapa pó, uma máscara, dessas que os médicos e dentistas usam, uma viseira de acrílico, semelhante aos EPI's de marcineiros e uma touca de plástico verde clara.
Vestiu todo os aparatos. Cobriu seus pés com os sacos plásticos e foi até a banheira.
Ficou admirando a jovem. Ela vestia uma blusa branca com uma estampa da Betty Boop. Calça suplex azul modelando um corpo já deliciosamente modelado. Seus cabelos eram negros. Se ela estivesse deitada no chão do estúdio, poder-se-ia dizer que a menina não tinha cabelo, tamanho seria o mimetismo. Calçava tênis branco com detalhes em rosa. Com certeza ela estava praticando exercícios.
Gabriel estava extasiado com a bela menina. Ficou adimirando-a por um tempo. Viu sangue em sua boca. Com todo o cuidado, girou a cabeça da menina levemente para a esquerda e para longe da loça da banheira. Pôde ver em hematoma em sua bochecha direita. Tocou o lábio dela. Viu que ela teve alguma reação. Estacou. Não. Ela não acordou. Puxou suavemente o carnudo lábio da morena para baixo e viu que estava cortado. “Eu disse pra ter cuidade... Aquele filho da puta vai ver só...”, pensou. Os dentes estavam intactos. “Menos mau.”

O cabelo da bela morena estava despenteado e preso em um rabo de cavalo. Gabriel, com cuidado, soltou o cabelo da moça e guardou o rabicó no bolso do tapa pó.
Tirou a luva direita e tocou o rosto da jovem. Liso. Macio. Quente. Suave. Perfeito. Baixou a máscara até o queixo.
- Hey, menina. Acorde. Acorde... - Gentilmente ele dava alguns tapinhas no lado não escoriado de seu rosto. Não obteve resultado. Se levantou “Ah, se aquele miserável quebrou alguma coisa... Eu juro que mato o infeliz! Eu juro!”, pensava alto. Foi até a bateria e pegou o banquinho. Colocou ao lado da banheira, ajustou-o para ficar um pouco mais alto, sentou-se e tentou acordar a moça novamente.
Dessa vez, Gabriel foi menos gentil. Com a mão direita, empurrou a menina, fazendo-a balançar e repetiu um pouco mais alto os “Acorde's”.
Agora deu resultado. A menina gemeu e lentamente abriu os olhos. Tentou se mexer. Não conseguia. Arregalou os olhos. Perdida, olhava em todas as direções, mas só conseguia ver a gelada louça branca. Tentou falar, mas com a mordaça em sua boca só se ouvia “mmmff! Humpf!”. Desesperada, começou a chorar. Quando Gabriel a tocou ela estremeceu e ampliou o seu choro acompanhado de um suplício abafado.
- Calma... Calma... Está tudo bem... Vai ficar tudo bem... Venha... Deixe-me ajudá-la. Vou ajuda-la a se sentar, tudo bem? - Falava com uma voz doce e suave.
A menina balançava a cabeça como quem disesse “não”. Gabriel não se incomodou com as negativas dela, agarrou-a por baixo dos braços e sentou-a encostada na ponta da banheira.
- O meu nome é Gabriel. Eu sou médico. Não se preocupe. Aquele brutamontes vai pagar pelo que fez em você, tudo bem? - falva olhando-a serenamente nos olhos.
A moreninha tinha um olhar aterrorizado esculpido na face. Era tocante ver o nível de medo que uma pessoa podia expressar apenas com os olhos. As lágrimas não paravam de jorrar dos olhos. Tremia dos pés a cabeça. Respiração descompassada. Não respondeu a pergunta.
- Está com sede?
Agora respondeu. Ascentiu com a cabeça, enquanto apertava os olhos, fazendo mais lágrimas espirrarem.
- Já volto. - Gabriel foi até uma segunda porta que tinha no recinto. Era como se fosse uma dispensa na parede. Apanhou uma garrafa d'água e um canudo. Abriu a garrafa e colocou o canudo.
- Eu vou tirar essa mordaça, ok?
Ela ascentiu. Devagar, Gabriel puxou a mordaça e soltou-a. O trapo ainda estava preso no pescoço da jovem.
- Me ajuda, moço, pelo amor de Deus! Me ajuda... Me ajuda! - Gabriel chegou com a garrafa próxima dos lábios da jovem. Ela começou a sorver a água através do canudo, mas antes de chegar a boca ela interrompeu a ação.
- Pode confiar em mim. Veja. Não tem nada na água. - Gabriel bebu um bom gole. - Viu? - Abriu a boca mostrando que tinha engolido.
- Por que não me desamarra? - Perguntou assustada.
- Já vou fazer isso, minha querida. Seja paciente.
Então, sorriu.

Após assistir, divertindo-se, a menina tomar em segundos toda a garrafa d'água, Gabriel perguntou:
- Qual o seu nome?
- Sara.
- Que nome magnífico! - Sara não comentou – Você é linda, minha querida... - Sara voltou a chorar – Ora, não chore... O Que houve? - Sara começou a chorar mais sofridamente. Um choro de profunda tristeza, desespero, angústia, sofrimento e uma pitada de raiva – Diga-me, o que há?
- COMO O QUE HÁ?! COMO O QUE HÁ?! - Sara gelou. Não acreditava no que tinha feito. Era o seu fim...
Gabriel começou a rir. Foi aumentando até virar gargalhada.
- Calma, minha querida... Calma... - Foi se aproximando da menina. S cabelos negros lhe caiam na frente do rosto. - Vou resolver tudo agora mesmo. - Sussurrou em seu ouvido.
Botou a mordaça na boca da menina, que voltou ao seu choro. Levantou-se e foi à dispensa. Pegou uma faca com doze centímetros de lâminia e um pano.
 A visão da faca foi o gatilho pressionado que disparou seu nível de desespero ao máximo. Estaria berrando para ser ouvida a quilômetros de distância, se não fosse a maldita mordaça. Chorava. A cada passo de Gabriel em sua direção aumentava o volume das lágrimas exponencialmente.
Gabriel chegou ao lado da banheira e encostou a faca no ombro de Sara.
- Shhh! Se você se mover, eu vou acabar te cortando, entendeu? Essa faca é muito afiada... - pegou uma pequena mecha de cabelos da menina e passou a faca. Mostrou o punhado de cabelos para ela. - Viu? Agora fica paradinha... - E foi para trás da moreninha.
Puxou a gola da camiseta dela e passou a faca no tecido.
- Me desculpe se eu machucar o seu pescoço, não é a minha intenção. É que essas roupas estão atrapalhando.
O tecido ofereceu uma certa resistência, porque Gabriel não queria machucar a menina, mas na quinta tentativa, ouve-se um “rasg” e as costas da camiseta se rasgam. Gabriel foi para o lado direito de Sara, apoiou as costas da lâmina no braço da menina e começou a forçar contra o tecido. Dessa vez não fez muito esforço e o tecido se rompeu. Já tinha pego a medida certa. Repetiu o processo do outro lado.
Tirou os restos de tecido do que uma vez fora sua camiseta. Agora, as única peça que cobria a parte de cima de seu corpo era um top para ginástica e seus cabelos.
Sara, nesse momento, começou a rezar.
Pedia para que o desgraçado a estuprasse e a deixasse ir embora. Ou que fizesse o que fosse... Não se importava mais, mas que a deixasse viva. Tanto faz. Só queria viver. Ir para casa. Não cogitava denunciá-lo. É isso. Daria sua palavra de que não chamaria a polícia. Só queria ir para casa. Diria que fora agredida por um lunático, desmaiou e acordara assim em um campo, em um terreno baldio ou fábrica abandonada. Há uma enorme na cidade que está assim a mais de cinquenta anos. Diria que não lembra do rosto do agressor, ou que ele usava uma máscara... Uma touca ninja! Isso! Assim ESSE louco, o verdadeiro, a deixaria ir para casa. Casa...
Casa...
O tarado foi até seus pés e tirou seus tênis e meias. Ele puxou a barra de suas calças pelos joelhos, para cima, com o intuito de tirar a barra das calças de baixo das cordas que amarravam suas pernas. Começou a cortar a da perna esquerda, pelo lado de fora da perna.
Sara sentia o frio das costas da lâmina da faca. Sentia o frio da porcelana em suas costas. Rezava mentalmente. Tentava falar, mas a mordaça não deixava. E o lunático parecia não se importar se ela tinha ou não algo a dizer. Não chorava mais. Se surpreendeu. Talvez as lágrimas haviam secado.
- Temos que nos livrarmos dessas calcinhas e desse top agora. - Gabriel falou, assim que terminou de cortar as calças. Sara sentia um nojo profundo do agressor. Começou a gritar. Nada adiantava, é claro, mas tinha raiva do maldito.
Gabriel voltou às costas da morena e cortou a alça direita da calcinha rosa. Fez o mesmo pelo outro lado. Já com o top, cortou as duas tiras que formavam um X nas costas, na altura do pescoço e depois cortou a tira mais grossa que prende o top ao corpo na horizontal também pelas costas.
Tirou todos os restos de roupas de dentro da banheira e jogou-os em direção a dispensa.
- Você é realmente linda, Sara. Muito, muito, mas muito linda! De verdade! Estou fascinado por você! Isso é privilégio de poucas, sabia? - sussurrou olhando-a nos olhos. - Quero você para mim. Para todo o sempre!
Então, Gabriel, lentamente, enfiou a faca no abdome da jovem, que gritava, abafada pela mordaça. Repetiu o processo mais duas vezes, dessa vez na coxa direita e depois na panturrilha esquerda. A menina chorava. Se retorcia. Urrava
- Agora vai passar, meu bem. Vai passar... Shhh... Pegou o pano que a amordaçava e a estrangulou. Assim que desfaleceu, ele continuou com a penetração da lâmina.
Não contou o número de vezes
O corpo foi encontrado – 2 dias depois - numa vala na estrada que faz a ligação com a cidade vizinha mais próxima. Estava nua e com inúmeras perfurações de quase 3cm de espessura por 12cm de profundidade, espalhadas por todo o corpo, menos rosto, seios e genitália.
O fazendeiro que a encontrou disse à polícia, em seu depoimento, que na manhã daquele dia, por volta das cinco da manhã, os cachorros não paravam de latir e ele resolveu levantar, com arma em punho, para averiguar o que poderia ser. Sua primeira reação foi um choque, mas ao “cair a ficha” chorou. Voltou correndo para casa, chamou a polícia e rezou... Suplicou, na verdade, para que o... Agressor... Pelo menos tenha a estrangulado antes de fazer as perfurações.

Não havia sinais de estupro.

______

Pedro Porciúncula - Natural de Rio Grande, RS, sou escritor, sem saber, desde 2005/2006, época em que comecei a escrever meus primeiros contos, travestidos de “Históricos de Personagens” para RPG, mas passei a ter consciência dessa habilidade em 2010, quando, após um sonho inspirador, criei o meu blog, o Anarchy Ink. Desde lá tenho mais de 100 publicações no mesmo, onde mesclo influências, principalmente André Vianco (o responsável por me atirar de cabeça no mundo da literatura), Charles Bukowski e o rock n’ roll, na busca de encontrar um estilo próprio. Além do Blog, participei de alguns varais de Poesia da Prefeitura Municipal de Rio Grande e fui coordenador do primeiro livro do grupo do facebook “Poetas de Pijama da FURG”, ao lado de Mayara Floss, lançado na 40ª Feira do Livro da Furg.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Literatura de Quinta, por Rody Cáceres



Aconteceu na livraria

Aquele cidadão entrou na loja logo nos primeiros minutos do dia. Os computadores  se quer tinham inicializado. Ainda pensavam os funcionários sobre qual seria a primeira tarefa do dia. Não tinham muitas opções, sempre há uma tarefa que deve ser executada antes das outras. O que tinham então eram pensamentos fingidos, deliberações com o propósito de enganar o espírito, mentir autonomia e propriedade. Esperavam o trivial, tudo aquilo que quando se tem, não se quer mais, e quando não se tem, seguro desemprego e bolsa família.  Reclamar é também agradecer pela oportunidade. Só que aquele cidadão que entrou na loja (nos primeiros minutos do dia) talvez não tivesse do que reclamar. Pois sorria.
                Imagine só! Pense num morador de rua, construa o corpo da fome, os trapos da tendência winter’s street, cabelos em louvor a Jah e tudo mais que se pode arruinar. Dê a ele cara de drogado, fala apressada, fissura da pedra, essas coisas do imaginário urbano. Coloque-o em um ambiente lotado de livros, elitizado, você sabe, paquiderme na loja de cristais. Evite pensar na cor da pele (isso foi por sua conta), não seja um Feliciano da vida. Agora, junto ao cidadão já bem formado em sua cabecinha, coloque um vendedor antigo na casa, calejado da clientela, ansioso por uma boa venda, um salto para o topo do ranking. Temos uma bela montagem.
                Faceiro da vida, o cidadão se dirigiu ao vendedor e balbuciou palavras conhecidas:
                “Tem gelo e fogo, gelo e fogo?”
                “Não entendi, amigo.”
                “Aquele livro, gelo e fogo.”
                “Queres dizer Crônicas de Gelo e Fogo?”
                “Isso ai, gelo e fogo, gelo e fogo.”
                “A coleção está ali, ó!”
                “Ali?”, apontou o cidadão para o primeiro livro que viu deitado sobre a mesa dos “mais vendidos”.
                “Não amigo, lá ó!”
                “Esse aqui?”, apontava o livro ao lado do anterior.
                “Não, não. Presta atenção em mim. Lá ó!”
                “E quanto tá?”, mal tinha visto os livros, já queria saber o preço.
                “É cinquenta e quatro e noventa.”
                “Tá bom, valeu. Tchau!”
                Virou as costas. Vale saber que o vendedor disse o preço do volume mais caro da série, já com o intuito de correr o cidadão da loja e deixar os clientes à vontade. Isso é recorrente em comércios: miseráveis não entram.
                O pobre cidadão nervoso foi um dos motivos das risadas de descontração. Muito se falou nele. Travado de coca, doente,  acho que ele é assim mesmo, vamos passar para o novato da equipe, uma forma de batismo, marcar a pele com ferro quente.  Tomara que não volte.
                Mas ele voltou, no outro dia, mais sorridente e faceiro do que nunca. Um mistério o que faz o cidadão feliz. O vendedor, o mesmo de antes, pois ele sempre está lá, sem como fugir, abordou o cidadão com voz firme -  será que ele vai dar em vim todos os dias aqui? As mãos nas costas, o peito estufado, a voz de macho que não era dele.
                “Posso lhe ajudar, amigo?”
                A mão limpa esticada em cumprimento. O nojo de apertar a mão do cidadão; mais forte a obrigação profissional e as câmeras de vigilância - que vigiam funcionários -  do que o asco social incrustado no espírito dos mais ou menos bem posicionados.
                “Eu quero um dicionário inglês-português.”
                “Um dicionário?”
                “Inglês-português, inglês-português.”
                “Tá, olha aqui ó. Tenho este ó, Oxford, trinta e nove o sem CD e quarenta e nove o com CD. Tu escolhe. O CD vem com o conteúdo do dicionário.”
                “O sem CD é mais barato né?”
                “Sim, é trinta e nove e noventa.”
                Vendedor e cidadão se olhavam. Carrancudo e sorridente, um sorriso cheio de dentes, sabe-se lá se o sorriso é pedra ou felicidade. Pode ser doença. Era o que pensava a colega ao lado, vendo toda ação com olhos de quem vê criança raquítica pedindo comida. Outro colega, em risadas, se escondia. Cada um na sua razão. A cena tinha tudo de engraçado e triste.
                “Tá, eu volto depois. “
                “Tudo bem, amigo. Até a próxima.”
                Enquanto o vendedor mostrava os inglês-português para o cidadão, uma venda de quase mil reais passou ombro a ombro com ele, ficando com a colega de trás. A venda do dia. Em números, a colega já podia ir para casa e curtir o resto da tarde. O vendedor levaria mais umas horas para atingir a meta diária e dar seu dia por vencido.
                E a fila andava depressa, livro sobre livro, vendas e negociações. O trem corria nos trilhos e fazia vácuo em quem ficava para trás. Ia bem o vendedor, telefone e telefone, seis vezes no cartão, é pra presente?, amanhã estará aqui, vem de Pelotas. Só um momentinho, por favor.
                A loja bombando, livro faltando. Um breve momento de ócio, parada para pensar na próxima ação, o vendedor ligaria para avisar os clientes que os livros encomendados não viriam, estavam em falta na distribuidora. Debruçado no balcão, telefone na orelha, todo mundo atendendo. A normalidade insana dos dias de trabalho.
                Na ponta da vitrine, do lado de fora da loja, despontou o cabelinho quase rasta. O sorriso e os olhos estalados. Não vai entrar, não vai entrar. Entrou.
                “Puta que pariu!”
                Fingiu falar com alguém ao telefone.  Um colega que atenda esse maluco. O cidadão sorriu largamente para o vendedor, parecia criança encontrando a mãe. Olhar breve, meneio de cabeça para não parecer rude e blá, blá, blá. A colega do parágrafo acima, comovida, ofereceu-se para ajudar o visitante.
                “Eu quero o dicionário inglês-português, inglês-português.”
                “Qual foi o dicionário que tu mostrou pra ele.”
                “Foi aquele ali, ó”, apontou o Oxford, sem tirar o fone da orelha.
                “É esse aqui, amiguinho?”
                “É esse mesmo. Tá aqui o dinheiro.”
                Um bolinho de moedas e notas fora jogado sobre o balcão. Era um real, dois reais, centavos e centavos de real. A colega precisou contar moeda por meda, separar as iguais e desamassar as notas bêbadas. Aquele sorriso de orelha a orelha. Vinte e três e noventa. O vendedor aproximou-se com ar de segurança, pretendia proteger a colega de possíveis ataques do marginal.
                “Peraí que vou tentar um bom desconto para tu levar esse dicionário.”
                As mãos e os olhos corriam loucos pelos livros. Abria e folheava o primeiro que encontrasse. Uma fome por leitura que  há muito não se via.
                “Olha amiguinho, esse dinheiro não dá. Tentei todos os descontos possíveis. Mas não deu mesmo. Desculpa, volta outra hora, eu guardo o dicionário pra ti.”
                “Tá, e esse de filosofia, quanto é? Pode ser esse, né?”
                “É vinte e cinco. Esse aí dá. Queres?”
                “Não, não. Eeu quero o dicionário inglês-português, inglês-português.”, saiu a passo e deixou o dinheiro com a colega.
                “Olha aqui teu dinheirinho, não esquece.”
                “Moça, moça, posso deixar contigo, tu cuida pra mim?”
                Certo que correu uma lágrima pelo rosto da colega.
                “Amiguinho, não posso ficar com teu dinheiro. Leva, mas cuida, não perde.”
                “Tá, tá.”
                Só deu pra sentir o vento da passagem do cidadão pela loja. Quase saiu antes da porta abrir. Sabe-se lá onde ia e quando voltaria.
                “De onde será que ele tirou esse dinheiro? Foi tão rápido, não deu tempo de roubar tantos trocados assim!”, levantou o vendedor.
                “Vai ver ele pediu, oras. Não precisa ser roubo.”,defendeu. A colega, claro.
                “Eu acho que ele tá chapado.”, disse outro funcionário, vindo do fundo da loja, pouco a par do acontecido.
                “Dei mais de quinze por cento e mesmo assim não deu. Uma pena, ele parece muito a fim de ter o dicionário.”
                Fingiam voltar a seus afazeres. Todos pensavam no rumo do cidadão, onde ia, com quem iria, o que fazia. Talvez voltasse um dia.
                Mas toda fome exige pressa.  
                “Moça, moça, acho que agora o dinheiro dá”.
                O cidadão entrou na loja em silêncio e surpreendeu a todos. Quando viram, o dinheiro já estava novamente largado sobre o balcão. Agora parecia mais, uns trocados extras, mais moedas. E aquele baita sorriso de orelha a orelha.
                A colega juntou os papéis amassados e as moedas espalhadas. Contou e contou e contou, deixou sair o ar que insistia em permanecer nos pulmões. Ar residual do turbilhão de emoções que vivia com aquele jovem faminto por leitura.
                Ela olhava para o sistema, mudava descontos, digitava senhas mágicas que aumentavam aas possibilidades de o cidadão sair com o dicionário. Caras e bocas, balanço de cabeça de quem pensa em uma solução. Pronto.
                “Agora acho que vai dar.”
                Não tinha mais para onde ir tanto sorriso. Não cabia no rosto e no espírito a felicidade daquele rapaz. Pegou a sacola com todos os dedos. Enrolou o plástico na mão direita, quase cortando a circulação, apertou o dicionário contra o peito e saiu a passos mais rápidos que antes. Parecia fugir com o volume, para que ninguém o tirasse dele. Era uma criança em noite de Natal.
                O senso comum me manda dizer que todos aprenderam uma lição. Mas você sabe, não é verdade.
                “Fico pensando o que ele vai fazer com o dicionário.”
                “Ele vai ler, oras.”, defendeu, ela.
                “Mas não se lê dicionários. Se usa para pesquisa.”
                “Eu acho que ele vai ler. E acho que ele vai voltar.”
                “Esse negócio de dar esmolas não leva o país pra frente. Assim ficamos na mesma: o governo dá bolsa família, as pessoas dão esmola... Quem vai salvar esse garoto? Ele precisa de um emprego!”
                “Você daria um emprego a ele?”
                “Bem, eu não, mas esse governo paternalista tem projetos de inclusão, não tem?”
                “Você daria um emprego a ele?”, insistiu a colega, enfática e irada. Como se terminasse a especulação sobre o novo cliente. “Agora ele é cliente, merece respeito.”
                E nada mudou na vida da gente vendedora.
                O cidadão agora é um cidadão com dicionário inglês-português.
                Foi bonito. E é raro. Raríssimo.

                 
______


Rody Cáceres
Escrever sobre si é aquilo. Aquilo que imaginamos, aquilo que iludimos. É buscar nos outros o que não encontramos em nós mesmos. Gosto de dizer que sou uma tentativa. Enquanto tento, ninguém me cobra o resultado. Mas tenho um blog: www.blogdorodycaceres.blogspot.com. Lá você me encontra tentando (sem trocadilhos). Contato: rody.caceres@hotmail.com.