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quinta-feira, 27 de junho de 2013

Literatura de Quinta - com Ju Blasina




Um ébrio*
Por Ju Blasina


um

copo
na mão

vazio ecoa
de dentro do
meu ser sedento

por qualquer garrafa

que traga em si
gota de vício 
encarnado

na ânsia 
de ser 

ébrio

--
* O poema "O ébrio" é um blavino, forma criada pelos poetas Ju Blasina e Volmar Camargo Junior. Para saber mais, clique aqui.
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Ju Blasina - Bióloga por formação e mestre em Fisiologia, guardou a literatura em gavetas até janeiro de 2009, quando então fundou seu blog P+2T [Poesias mais dois tantos]. Na mesma época, tornou-se colaboradora do caderno Mulher Interativa (Jornal Agora, RS) e da Revista Samizdat. Desde então, tem participado de diversos sites literários coletivo e de eventos culturais de sua região. Atua como redatora web e administradora de redes sociais. Integra os grupos Poesia no bar e Coletivo Fita Amarela. É mulher de artista, mãe de duas gatas [Rukia e Jani] e de um menino Dimitri [o Dimi] cujo sorriso nenhum verso parece capaz de descrever. Gosta de ter copos bonitos e neles boas bebidas como companhia da lida da escrita.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Literatura de Quinta - com Paulo Olmedo



O barbeiro
Por Paulo Olmedo

Largou a navalha sobre a pia, cumprindo o ritual diário que iniciara há trinta anos, no exato mesmo dia em que abrira a barbearia. Todo dia encerrava a jornada de trabalho fazendo a própria barba do mesmo jeito que seu pai havia lhe ensinado e com a mesma técnica que por três décadas arrecadaria clientes e admiradores. Mas havia algo de triste em sua última passada da navalha: há pouco soubera da notícia da morte de Seu Alberto.

O “Seu” tratava-se de uma mera formalidade, já que Alberto era praticamente de sua idade e menos que a iminência da morte o que o angustiava era a perda de seu melhor cliente. Sem Seu Alberto a barbearia ficaria atirada à sorte de eventuais – e cada vez mais raros – clientes, decerto apreciadores de um corte à moda antiga. Orgulhava-se de seu estilo e, principalmente, de nunca ter-se utilizado de geringonça eletrônica alguma, especialmente a tal máquina, da qual tinha particular pavor. Ao longo dos anos, viu uma mudança drástica ocorrer através da janela daquela pequena sala no Mercado Público. Os prédios modernizaram-se, a cidade inchou, mas tal qual o olho do furacão, ali e à sua volta pouquíssimo mudara. Sentia saudade do tempo em que filas acumulavam-se no sofá desbotado de sua barbearia. E ressentia-se, principalmente, do bate-papo agradável com os clientes, quase sempre discutindo as notícias do dia, estampadas no principal jornal da cidade.

Agora, tudo era diferente. Até o jornal havia reduzido sua tiragem em troca de uma participação maior na tal de internet, que ele sabia por longe como algo dentro de um computador. Ao depositar a navalha cansada de um dia de trabalho pensou em Seu Alberto e em como a presença daquele senhor agradava-lhe as tardes, três vezes por semana, fazendo esquecê-lo desses dias terríveis de poucas conversas e sorrisos. Lembrou também da paisagem outrora admirável a qual desvelava, ao fundo, a Lagoa, hoje algo impossível por conta de meia dúzia de prédios e lojas vindas de longe. Suspirou fundo, os meses não andavam generosos. Há alguns, havia perdido sua esposa, companheira de quase uma vida e alento para quando largava a navalha na pia, encerrando suas atividades diárias. Era um velho, pensou, que muito pouco teria pela frente e que talvez tivesse menos ainda, já que agora os negócios escasseariam de vez.

Não tinha nada a perder. Nunca fora, de fato, religioso, pelo contrário, as conversas que mantinha com os, então, vários clientes da barbearia o fizeram um cético. Pegou a navalha na mão, acariciou-a como o filho que nunca teve. Pensou, uma vez mais, que ninguém o esperava em casa. Pensou nos trinta anos de companheirismo que compartilhavam. Fechou calmamente a barbearia. Tudo havia mudado, só ele permanecera, esperando pelo desfecho inevitável. Colocou a navalha no bolso, seria a primeira vez que a levaria para casa. Sorriu um sorriso de esperança. Havia tomado uma decisão. Se voltasse amanhã, deixaria a barba crescer._______________________________



Paulo Olmedo - 
Formado em Letras-Português, pela Universidade Federal do Rio Grande – FURG. Atualmente é mestrando do Programa de Pós-graduação em Letras – Mestrado em História da Literatura, pela mesma instituição. Escreve contos e tem experiência na área do audiovisual e teatro. É dono do blog Vida Irreal e, no momento, aposta no projeto Mini Olmedos.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Literatura de Quinta - com Andréia Pires



Autodeclaração
Mal ou bem, já nos acostumamos. Cada vez que se tenta entrar numa rede social na internet é necessário prestar contas, minimamente, sobre quem se é. É o nome, o sobrenome, o jeito como deseja ser chamado, a data de nascimento, o trabalho ou a ocupação, interesses, preferências, restrições, e e-mails: o principal, o alternativo, o de segurança, etc. Depois de completar campos marcados com asteriscos e ficar em dúvida se gasta tempo ou não com os opcionais, a pessoa precisa ainda digitar como vê uma sequência de letras, números e outros símbolos misturados dentro de um retângulo editável. Para provar que não é um robô. Está assim de gente recorrendo a terapias para curar a crise existencial que momentos decisivos como esse disparam. Se na rotina virtual é dessa maneira, imagina na vida, ordinária, nessa, de todo dia?

Valéria vivia passando recibo a respeito de si, mas nem percebia de tão envolvida que sempre esteve com o futuro. Tudo nela parecia acusar, revelar, apresentar, dizer. Em parte. Em uma parte visível e fácil de lidar. Queria ser médica e andar pelo mundo tratando de doenças em regiões de onde normalmente tinha notícia somente pela televisão. Era cabeça, tronco, membros, pele, órgãos, células, sangue, oxigênio, bisturi, medicamentos, livros e mais livros sobre saúde e sobre como funcionam os corpos humanos, um interesse sem fim e o mesmo assunto compulsivamente, feito vinil arranhado, repetindo e repetindo e repetindo o mesmo trecho. Além da que tinha na escola, sabia o rumo das bibliotecas da cidade e da universidade e fazia desses lugares pontos estratégicos de concentração. Falta pouco para os exames de admissão e preciso estar pronta, dizia para dentro pelo menos uma dúzia de vezes, diariamente, como uma reza, um mantra particular, enquanto cumpria à risca seu plano de estudos.

Prestaria provas em oito instituições de ensino superior, todas com seus calhamaços de exigências e formulários, curiosidades estapafúrdias - ô palavrinha que gostava de pronunciar: es-ta-pa-fúr-dia e suas variações – e prazos de inscrições abertos. Cheia de esperanças, juntou documentos e começou a preencher os requisitos da primeira. Com os novos rearranjos do governo para o ingresso nas universidades, as combinações poderiam ou não dar certo para Valéria. Andava sobre a linha que separa ou amarra esforço e sorte quando percebeu que, na verdade, não entendia o jogo. Havia estudado mais do que bastante, mas nem chegara perto do todo, do infinito.

Autodeclarar-se isto ou aquilo não era problema, o caso é que realmente não sabia. As certezas resvalando pelas teclas do computador. Olhou para as mãos abertas, correu os olhos pelos braços e. Não era preta, nem branca, nem amarela, que raio significava o termo “pardo”? Só lembrava do rolo de papel que na escola usavam para fazer cartazes. E sexo? Nunca tinha feito. Nasceu com vagina, mas não tinha tempo para desejar ninguém, podia muito bem gostar de mulheres e/ou de homens, tinha um apreço tão grande por gente, em especial por crianças e velhos. E que diferença fazia contar do salário da mãe e do pai, um morto outro sumido, se era ela e não eles quem auscultaria peitos e diagnosticaria dores dali para frente? Seria indígena? Compartilhava de cabelos lisos e negros e selvagens e de uma vontade inexplicável de verde com povos distantes. Por que não? Na dúvida, Valéria rasurou os espaços em branco e escreveu “sou um robô” em letras bem maiúsculas no espaço “observações”. Confusa, vestiu o cansaço, suspirou intenção e dúvida, e guardou a médica no bolso.
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Andréia Pires é jornalista, doutoranda em escrita criativa, mestre em história da literatura e autora do livro de contos De solas e asas. Integra o Coletivo Fita Amarela, colabora todo dia 22 na Revista Samizdat, semanalmente com contos ao jornal Diário Popular e publica o que escreve, em primeira mão, no blog www.desolaseasas.blogspot.com.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Literatura de Quinta: com Volmar Camargo Junior




historia oral
Por Volmar Camargo Junior

quero dormir

a boca deixou-se gastar minérios
anos e dentes se perdem nas contas
e agora que de uns tenho trinta e dois
os outros andam entregues à banda podre da microbiota bucal indígena

um dos bichos habitantes da casa lambe a bunda para limpar-se e não tem cáries
eu
tentando não vir cá escrever versos tão dolorosos e insones
[não é o primeiro poema dessas dores]
tomei quarenta de suas gotas anti-inflamatórias
que a nova ortografia fez por bem separar com hífen

quero dormir
acordar menos amargo nessa vida e seguir doces conselhos mas não posso
os açúcares
como veem
me põem comovido como o diabo
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Volmar Camargo Junior, o V., nativo de Cruz Alta, ativo em Rio Grande, é poeta, vendedor de livros. professor não praticante, pai do Dimitri. Escreveu os blogs Um resto de café frio, O balcão das artes impuras e Verbo. Escreve agora o Pragas Urbanas Renitentes. Seu primeiro livro em papel é O Balcão das Artes Impuras (Multifoco, 2012).O poema de V. Camargo Junior integra o projeto Pragas Urbanas Renitentes.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Literatura de Quinta: com Giliard Barbosa



Ritual
Por Giliard Barbosa

Arnaldo já conhecia o roteiro: piscadinha de olho, olhada fixa e esboço de um sorriso, uma desculpa pra se aproximar e pronto, era só arrastar a moça pra um motelzinho qualquer e se satisfazer. Tinha conseguido mais uma safada pra preencher a lista não realizada na adolescência.

Algumas se faziam de difíceis, outras já iam abrindo as pernas tão logo desciam do carro. Outras, ainda, não chegavam sequer a sair dele. O mapa feminino era sempre o mesmo: mão nas coxas enquanto dirigia, um carinho nos cabelos – pra não parecer tarado demais – e, estacionasse em algum lugar discreto, puxava a mulher pelo pescoço e já iniciava carinhos mais ousados, que a minha pudicícia de narrador sem público-alvo me impede de contar.

E assim passavam Claudinhas, Joanas, Marinas, Luanas, Silvinhas, Karinas, Manus... Todas conheciam o melhor de Arnaldo, como se o tivessem por uma única vez. E realmente o tinham em dose única, se é que alguma vez o tivessem de fato.

Ocorre que Arnaldo era casado, mas não conseguia controlar os impulsos que lhe atormentavam o espírito. Queria manter-se fiel a Silvana, amava-a mais que tudo no mundo. Não cansava de dar-lhe presentes e de elogiá-la, mas também não conseguia dar conta dos próprios desejos. Já havia feito de tudo: masturbação diária, água gelada a cada maldito pensamento, abstenção sexual para tentar perder o desejo, vídeos na internet.

Não adiantava nada. Ao passar do primeiro par de pernas, Arnaldo dava um jeito de pular a cerca e entrar no paraíso momentâneo do prazer proibido. E, a cada gozo, sentia uma culpa incomensurável. E tremendamente hipócrita, porque não havia remorso que o fizesse frear a vontade imensa de burlar as regras do amor correspondido.

Assim, para tentar parecer menos cafajeste, Arnaldo elaborou um código próprio de conduta: transava apenas uma vez com cada mulher, quase sempre desconhecida, e assumia um nome diferente com cada uma, uma nova identidade a cada orgasmo. A cada gozo morria o traidor e nascia um justiceiro, que fugia do local repugnante tão logo sentisse o cheiro a sexo recém praticado. Aquele justiceiro, um dia, se corrompia aos prazeres da carne. Morria no gozo e dava origem a um novo, preocupado em reparar os erros do anterior.

E, para expulsar de vez o gosto do pecado e expiar os maus passos de seu antecessor, o justiceiro sempre cuspia nas mulheres entregues. Isso mesmo. Claudinhas, Joanas, Marinas, Luanas, Silvinhas, Karinas, Manus... Todas cuspidas, recusadas, repugnadas. Algumas se ofendiam e resolviam tirar satisfações. Outras gostavam e pediam mais. Todas ficavam a ver navios, sempre.

Um dia, Simone conheceu João. O mesmo roteiro idiota de todo homem: piscadinha de olho, olhada fixa e esboço de um sorriso, uma desculpa pra se aproximar e pronto, já queria arrastar a moça pra um motelzinho qualquer e se satisfazer. Ela resistiu, mas depois deu o braço a torcer. Esse era até gostosinho. Impôs, contudo, uma condição:

– Vou no meu carro.

E foram. O rapaz, mais previsível do que nunca, acariciou os cabelos dela antes de começar a apertá-la como se ela fosse um pacote de bolas de massagem. Em dez minutos já haviam terminado. Ele soltou um gemido, meteu com mais força, e jogou todo o peso em cima dela, como se ela fosse um pedaço inanimado de qualquer coisa.

Simone ficou com nojo. Cuspiu na cara do precoce soberbo e foi embora. Sem dizer nada, nem deixar telefone.

E desde então Arnaldo vai todas as tardes ao banco, na esperança de reencontrar Luíza.

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Giliard Barbosa faz de tudo um pouco: curte corrida, fotografia, gastronomia, e estuda teclado - mas não toca nada. Escreve desde pequeno aquilo que chama de pseudopoemas. Formado em Letras, é professor de espanhol e mestrando em História da Literatura pela Furg, onde estuda relações entre mito e literatura. Além de vir publicando alguns artigos sobre o tema, dá aulas de Literatura em projetos universitários e atua no grupo de teatro O Flato do Gato, dirigido por Geraldo da Silva. Sempre que uma palavra lhe coça os ouvidos, vai para o blog OCasmurro, depósito do arteiro poeta. 

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Literatura de Quinta - com Ju Blasina




Do poeta
Por Ju Blasina

O poeta é um sujeito
estranho que sofre
secretamente agradecendo à [má?]
sorte que o leva a escrever algo
maior que as pequenices vividas

E ao concluir a árdua tarefa
de lapidar dores em versos
talhados para que pareçam piores
ou melhores, mas sempre distantes
da realidade ele expressa:

"Eis um novo poema
e isso é tudo
o que mais (?)
me importa (?)
nesse mundo de merda"

Se o poeta mente (?)
sempre e mais
para si mesmo
não o faz por maldade
talvez por indiferença

Ou talvez ele apenas
não saiba como
suportar verdades
tão fatais e alheias
aos sonhos

Por pior que sejam
os poetas e os sonhos
são ambos feitos
da mesma matéria
saibam eles ou queiram ou não. 

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Ju Blasina - Bióloga por formação e mestre em Fisiologia, guardou a literatura em gavetas até janeiro de 2009, quando então fundou seu blog P+2T [Poesias mais dois tantos]. Na mesma época, tornou-se colaboradora do caderno Mulher Interativa (Jornal Agora, RS) e da Revista Samizdat. Desde então, tem participado de diversos sites literários coletivo e de eventos culturais de sua região. Atua como redatora web e administradora de redes sociais. Integra os grupos Poesia no bar e Coletivo Fita Amarela. É mulher de artista, mãe de duas gatas [Rukia e Jani] e de um menino Dimitri [o Dimi] cujo sorriso nenhum verso parece capaz de descrever. Gosta de ter copos bonitos e neles boas bebidas como companhia da lida da escrita.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Literatura de Quinta - com Paulo Olmedo


O mestre e eu
Por Paulo Olmedo

Ele disse que me desejava noites em claro. Eu, obviamente, achei interessante, não tanto como um desejo literal, mas como possibilidade poética. A representação do artista. Café e cigarros no meio da noite. Achei que se referia à angústia criadora, que não te deixa dormir, mas, talvez implicitamente, houvesse uma referência ao café que te deixa insone. Os cigarros foram uma conclusão óbvia a partir da imagem clássica do escritor, com demônios sussurrando em seu ouvido, sentado em sua cadeira giratória em frente à máquina de escrever, com o café ao lado, no enfumaçado ambiente em que o cigarro, à metade, repousa no cinzeiro. Eu sempre achara que dormir era a resposta. Não dormir, propriamente dito, mas sonhar. No sonho um mundo se desvela. Possibilidades narrativas. Ideias originais roubadas do meu eu em repouso. Porém, observando meu escritor imaginário – surpreendentemente não era eu, talvez uma versão minha, de barbas brancas e calvície proeminente -, atento para o fato de que é noite. Ou seja, naquela imagem, por fato viciada, a noite era um componente. A noite em claro, com toda sua contradição. Ao deixar o mestre, havia eu achado sua observação tola, uma vez que renegava o sonho, talvez o mais poético ato humano, porém ao pôr-me a refletir, desacreditei-me e questionei o que antes pensava. E naquela noite não dormi.

(...)

Quando tornei a ver o mestre, algumas noites em claro já haviam passado. Ele riu da minha credulidade e disse que a metáfora não importava, que o importante era a reflexão. Indaguei se este era o primeiro passo para me tornar aquele escritor, do café e dos cigarros. O mestre achou curioso e me explicou que o primeiro passo era matar aquela imagem. Percebe, ele disse, o sonho é uma imagem pronta, assim como aquele homem e sua máquina de escrever, a arte é fruto da dor. E quando eu começava a compreender que era preciso me desprender das coisas pré-estabelecidas, que a máquina de escrever não datilografava sozinha, que o escrito é fruto do suor e esforço, o mestre me sentenciou: o que te desejo não são noites em claro, mas noites mal dormidas. Aquilo foi pior. Noites mal dormidas envolvem tentativas. Lutar contra o sono é uma coisa, querer e não querer dormir é outra. O mestre havia me perturbado. Antes ficava acordado, a olhar pro escuro, depois deitava sabendo que não adormeceria. Tentar o suicídio é pior que o suicídio em si. Há uma vergonha velada na incompletude. E quando eu dormia, por instantes, minha mente chamava de volta. E assim ficava, num constante movimento de sonho e consciência, não pertencendo nem a um, nem a outro. E muitas noites se sucederam desta forma, sem saber quando acordava ou quando, enfim, repousaria.

(...)

Passei muitos anos sem ver o mestre. Não porque não quisesse, mas porque não o encontrava. Era como se tivesse sumido. Tornei a encontrá-lo ao cabo da minha vida – eu já um velho, de barbas brancas e calvície proeminente. A ele o tempo não havia passado. Disse-lhe, mestre, por onde andavas? Havia tanto ainda para eu aprender. Ele riu como antes e falou que estava comigo, sempre esteve. Eu o havia absorvido, na labuta diária do esforço da folha em branco, na dor das noites mal dormidas. Eu, e agora me dava conta, me transformara nele. Eu o havia matado. Tentei pedir desculpas. Ele sorriu e enquanto mexia a boca era eu quem falava. Não se preocupe, é para isso que servem os mestres. Agora já podes dormir em paz.
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Paulo Olmedo - 
Formado em Letras-Português, pela Universidade Federal do Rio Grande – FURG. Atualmente é mestrando do Programa de Pós-graduação em Letras – Mestrado em História da Literatura, pela mesma instituição. Escreve contos e tem experiência na área do audiovisual e teatro. É dono do blog Vida Irreal e, no momento, aposta no projeto Mini Olmedos.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Literatura de Quinta - com Andréia Pires



Carona
Calor escaldante. Ela fez uma lista enorme dos itens que faltavam em casa, trocou o pijama por roupas confortáveis e colocou no ombro a sacola ecológica tamanho G, de alças largas e verdes e corpo de lona estampada de peixes ameaçados de extinção. Dentro da sacola, uma garrafa plástica com água colhida na torneira da cozinha, a carteira e as chaves do apartamento. Supermercado era tortura a qualquer momento, pela manhã, à tarde, à noite, de segunda à sexta, domingo ou feriado, talvez se houvesse algum que funcionasse na madrugada, inventava alternativa a mulher da geladeira vazia. Mas não havia. O jeito era preparar-se para o sufoco do carrinho pesado, das filas, dos papinhos sobre academia, futebol, carnaval, filhos pequenos e malcriados, parentes doentes que precisam de oração, e toda a sorte de assunto que corredores estreitos e prateleiras abarrotadas inspiram.

Foi conformada. A pé, pela sombra, o pensamento no final de semana. Quase lá, reparou no carro azul, que andava mais devagar e mais próximo do cordão do que a maioria dos automóveis. Reparou, assim, com o canto do olho, e, estranhando, apurou o passo. O carro azul apurou também e a acompanhou por alguns metros, até que ela ouviu barulho do vidro descendo. Oi, vai pro centro, topa carona, queria saber um homem jovem, de sorriso aberto. Não vou, obrigada, ela foi dizendo, sem graça. Mas eu te levo para onde estás indo, aonde é? Moço, eu não quero carona e eu tô com pressa, obrigada, respondeu, quase correndo. O vidro subiu e o carro seguiu, dobrou na primeira esquina e pronto, que coisa estranha, o que esse cara pensa, ensinamento bem aprendido da infância foi esse de jamais pegar carona com estranhos, onde já se viu. Ela ainda conferiu a blusa, o short, os tênis, o cabelo – será que havia algo fora do lugar chamando atenção de desconhecido? – antes de retomar o ritmo da caminhada.

Parou para cruzar a rua, observou à esquerda, tudo livre, e à direita, o carro azul estacionado, um arrepio nas costas, uma agonia de repente. Começou a travessia e. Ao acordar lembrou do estrondo e sentiu dor aguda na cabeça. Os punhos e os tornozelos atados, a boca tapada com uma camada grossa de adesivo ou coisa parecida. Não identificava o lugar, reconhecia apenas a sacola com seus pertences atirada no chão e o pedaço do carro azul que conseguia ver pela janela aberta. Tinha berros por dentro, tinha choro e uma raiva funda. Nada disso escapava nem ganhava a rua, porque ela estava, mesmo, bem amarrada e amordaçada. Não queria perder a esperança ou a resistência, mas sabia que viria o pior. Aproveitou todas as brechas que pareciam chances de fuga, sem sucesso. Brigou, mordeu, cuspiu, implorou, desistiu. O homem do carro azul parecia surdo à voz e às reações dela. Ele queria. Ela nunca quis.

Dias depois ela reapareceu. Em pedaços no matagal atrás do supermercado. Encontraram primeiro a sacola ecológica intacta, em seguida o corpo devassado, no bolso a lista: ovos, leite, pão, margarina... Que horror, disseram. Foi dito também que a culpa era dela, não se vai às compras de short curto e regata, tudo à mostra. Não se vai.
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Andréia Pires é jornalista, doutoranda em escrita criativa, mestre em história da literatura e autora do livro de contos De solas e asas. Integra o Coletivo Fita Amarela, colabora todo dia 22 na Revista Samizdat, semanalmente com contos ao jornal Diário Popular e publica o que escreve, em primeira mão, no blog www.desolaseasas.blogspot.com.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Literatura de Quinta: com Volmar Camargo Junior



sessão da tarde
Por Volmar Camargo Junior

na entrada da casa os silêncios ficam duros na terra pisada
são pedras sulcadas os que me derrubam sombras no pátio
avizinha-se pelas frestas uma poeira fina

o soalho regurgita o suor escorrido de umas tardes idas

fluidos de outras tantas rompem a pintura da parede por dentro

e se fico saudoso nessas de agora vagarosas de me ser aos poucos
olho sem esperança os fios de telefone expostos como veias
não há oxigênio bastante para comunicação ultimamente

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Volmar Camargo Junior, o V., nativo de Cruz Alta, ativo em Rio Grande, é poeta, vendedor de livros. professor não praticante, pai do Dimitri. Escreveu os blogs Um resto de café frio, O balcão das artes impuras e Verbo. Escreve agora o Pragas Urbanas Renitentes. Seu primeiro livro em papel é O Balcão das Artes Impuras (Multifoco, 2012).O poema de V. Camargo Junior integra o projeto Pragas Urbanas Renitentes.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Literatura de Quinta - com Giliard Barbosa


Convocatória
Por Giliard Barbosa

Vem.

A casa tá pronta
A mala tá pronta
E já tem um espaço
Do lado direito
Do guardarroupas

O coração tá cheio
Mas este foi ocupado
Desde antes
De a cabeça te aceitar...

Vem.

A pressa não é tua
A pressa é minha
Que já não suporto
Digerir-te à distância

Deixa-me sorver-te
Absorver-te
Degustar-te
Viver-te
Pela eternidade.

Vem.
E me torna completo.

Porque assim,
Vez ou outra,
Eu sou um nada
Sem ti
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Giliard Barbosa faz de tudo um pouco: curte corrida, fotografia, gastronomia, e estuda teclado - mas não toca nada. Escreve desde pequeno aquilo que chama de pseudopoemas. Formado em Letras, é professor de espanhol e mestrando em História da Literatura pela Furg, onde estuda relações entre mito e literatura. Além de vir publicando alguns artigos sobre o tema, dá aulas de Literatura em projetos universitários e atua no grupo de teatro O Flato do Gato, dirigido por Geraldo da Silva. Sempre que uma palavra lhe coça os ouvidos, vai para o blog OCasmurro, depósito do arteiro poeta. 

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Literatura de Quinta - com Ju Blasina




A boiada

A vida não passa
de um eterno
tocar de bois

ainda que não se saiba
de certo
o caminho
ainda que não se aviste
de todo
seu fim
ainda que esteja frio
e não haja buraco qualquer
para esconder a si mesmo
e aos bois
ainda que esteja quente
e não haja sombra
quem dirá poço d'água
por menor que fosse
-postergaria a sede
mas não há
a água é uma utopia
o poço, uma miragem
a sede, uma verdade
e a vida
um pouco dum, outro doutro

e esse eterno tocar de bois

ainda que não haja pasto
para deitar-se sobre
a relva
para dar de comer
aos bois
ainda que não haja fruto
ou animal
menor
com o qual se possa enganar
as próprias tripas
- comer-se-ão umas às outras
em breve
não demora
não agora

agora é preciso tocar os bois

e eis que surge um rio
ou a miragem dele:
um grande buraco na terra
coberto de água, repleto
de pequenos animais
um lugar para matar
a sede e a fome de todo
homem ou boi
um lugar para esconder
a si mesmo
talvez?
antes fosse
miragem

mas é a morte

e não há outro caminho
a não ser esse que
uma vez trilhado
come a si mesmo
como as tripas
só resta seguir adiante
os bois têm fome
os bois têm sede
os bois têm medo
os bois têm pressa
ainda que de nada adiante
é preciso tocar os bois
rio a dentro
morte há dentro
sem demora

que a margem estreita se autodevora

agora
do caminho
só resta o rio
e fora dele
cada boi espera
sozinho
dentro do couro
dentro da boiada
por trás daqueles olhos
bestas
esperam o fim
da luta
entre o medo e a aceitação
do inevitável
não se pode correr
também pudera
já não mais há para onde correr
só resta agora aquele rio
onde o bicho menor
come o maior
e a água
que não mata
a sede
a tudo encobre

sob a superfície vermelha

agora
sob a couraça
cada boi receia
talvez antes
pouco antes
eles pudessem matar
a sede.
o homem
que pelo depois anseia
seguirá a boiada
pois também é bicho
também tem sede
medo e outras fraquezas
pois já não há tempo
já não há caminho
já não há razão
qualquer que o impeça
de assim o fazer
e, definitivamente
a si mesmo esconder
dentro daquele buraco

tudo que resta é a demanda
o destino
e o rio

é preciso tocar os bois. 

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Ju Blasina - Bióloga por formação e mestre em Fisiologia, guardou a literatura em gavetas até janeiro de 2009, quando então fundou seu blog P+2T [Poesias mais dois tantos]. Na mesma época, tornou-se colaboradora do caderno Mulher Interativa (Jornal Agora, RS) e da Revista Samizdat. Desde então, tem participado de diversos sites literários coletivo e de eventos culturais de sua região. Atua como redatora web e administradora de redes sociais. Integra os grupos Poesia no bar e Coletivo Fita Amarela. É mulher de artista, mãe de duas gatas [Rukia e Jani] e de um menino Dimitri [o Dimi] cujo sorriso nenhum verso parece capaz de descrever. Gosta de ter copos bonitos e neles boas bebidas como companhia da lida da escrita.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Literatura de Quinta - com Paulo Olmedo





O fazedor de chuva*
Por Paulo Olmedo


Quando eu era criança, na minha pequena cidade, havia muitas histórias que nos causavam medo. Hoje em dia, algumas dessas histórias seriam classificadas como lendas e muitos até ririam se as contássemos a sério. Mas na minha época, elas eram revestidas de uma gravidade quase divina e quem zombasse delas recebia em troca um olhar atravessado, que imediatamente o colocava na categoria de herege.

Lutei muito comigo mesmo, ao longo dos anos, contra a história que vou contar. E até hoje, às vezes, quando a conto a algum solicitante, me interrogo se ela aconteceu de fato. Mas a verdade é que, talvez pelo tom solene que emprego, talvez pela minha idade avançada cujos cabelos brancos confessam, os meus ouvintes a tomam como verdade incontestável. E emocionam-se, achando que a vida é mesmo feita de uma magia inexplicável. Quanto a mim, já duvido seriamente da minha história. Parece-me, cada vez mais, um sonho qualquer que tive.

Dos que me conheceram quando criança, sempre ouvi que era um menino esperto e muito curioso. Talvez por isso, aquela figura sentada no banco da praça me atraía tanto. Era um homem velho, o qual todos ignoravam a presença, que ficava lá, todos os dias, os olhos perdidos no vazio, fitando algo que um olhar qualquer não podia dizer. Ninguém sabia dizer como ele viera parar ali, ou por que razão sentava todos os dias no mesmo banco, na mesma praça. De fato, ninguém sabia ao certo se ele saía dali. Sua presença já fazia parte da velha paisagem de praça antiga de cidadezinha esquecida. Não bastasse a insólita presença, que a maioria das pessoas já haviam se acostumado e, portanto, nem mais achavam extraordinário, às vezes o velho homem se punha a chorar. Era um choro melancólico, de quem descobre que a espera é inútil, mas não arreda pé, pois não sabe pra onde ir. E quando as lágrimas escorriam em sua face, acompanhadas de um gemido triste, ninguém corria para acudi-lo ou lhe oferecer conforto. Rumavam para suas casas, cientes da iminência da chuva. Ninguém sabia explicar, talvez nem fosse necessário, mas toda vez que o Velho Fazedor de Chuva – assim as pessoas o chamavam – banhava as faces com suas lágrimas, o céu escurecia, não importava a estação, e todo mundo corria para suas casas, para fechar as janelas e tirar as roupas do varal.

Os meninos da minha idade, assim como eu, temiam aquela figura. Ninguém se atrevia sequer a se aproximar do Fazedor de Chuva. Muitos de nós acreditavam piamente que ele pudesse largar um relâmpago em quem se aproximasse, ou soltar uma trovoada simplesmente abrindo a boca pra dizer alguma coisa. Se a velha praça, do velho banco, do Velho Fazedor de Chuva, não fosse no meio da cidade e, consequentemente, caminho para qualquer direção que tomássemos, certamente evitaríamos de passar por ela. Porém, como a necessidade nos obrigava, passávamos muitas vezes por ali, na ida ou na volta da escola, quando precisávamos ir ao armazém e até mesmo para irmos ao campinho de futebol. Apesar de amedrontadora, a imagem do velho já nos era corriqueira e muitos sequer olhavam para ele, esquecidos de sua presença. Eu, porém, parecia atraído magneticamente por sua presença eterna, sendo que – não quero que me acredite – muitas vezes, era ele quem parecia me observar.

Obviamente, não fosse por algum evento fortuito eu jamais me aproximaria do Fazedor de Chuva. No entanto, parece que tudo conspira a favor daqueles que se atrevem a quebrar os paradigmas estabelecidos. Não que eu considere uma sorte que isso aconteça, e à época provavelmente, deve ter passado por minha cabeça que foi um grande azar. Mas hoje, já tendo passado por tudo que passei, não posso deixar de crer que foi uma bênção quando a nossa bola de futebol – a única da cidade, diga-se de passagem – recebeu um chute defeituoso e foi-se esconder medrosamente debaixo do velho banco do Velho Fazedor de Chuva.

Quase houve um briga entre nós. A maioria, amedrontada, não queria ir buscá-la. O dono chorava encolhido, prevendo a surra que levaria se chegasse em casa sem ela. Eu estava paralisado, olhando na direção da bola, era o que parecia, ao menos. Na verdade, eu olhava na direção do Velho e via naquela pelota embaixo do banco a grande oportunidade de perguntar a ele o que fazia ali. Enquanto os meus amigos discutiam, eu tirei coragem não sei de onde e candidatei-me a resgatar o brinquedo perdido. Eles entreolharam-se, julgando-me louco e eu nem esperei por sua aceitação para caminhar em direção ao banco – e ao Velho. Os garotos paralisaram por uns segundo e depois saíram correndo, sem querer saber se eu iria conseguir ou não, afinal uma tempestade podia estar a caminho.

Até hoje fico pensando o que me deu para enfrentar a aventura que fazia meus amigos correrem. Lembro que quando trouxe a bola de volta, menti. Falei que a peguei, apenas, e saí correndo. Eles não entenderiam. Fosse o Velho um louco ou um bruxo talvez eu me gabasse de tê-lo enfrentado. Porém, o que ouvi dele foi tão trivial e ao mesmo tempo tão marcante que eles não poderiam saber.

Eu tremia um pouco quando me aproximei do banco, olhei pra trás e vi as costas de meus amigos que corriam. Fui me chegando, devagar. Arrisquei falar-lhe, talvez adiantasse:

- Senhor, posso pegar a bola?

O Velho sorriu. Um sorriso largo que até o sol brilhou mais forte. Era quase como se me cegasse. Olhou pra mim, seus olhos possuíam uma serenidade que antes eu não percebera, e bateu com a mão no banco, convidando-me a sentar. Eu já não me lembro se ainda tremia, mas tenho a impressão de que o tempo que levei até sentar ao seu lado levou uma eternidade. Quando estava sentado, parecia que o medo já não mais existia. Pelo contrário, uma paz serena tomou conta de mim. Olhei pro vazio, como se quisesse enxergar o que só o Velho enxergava.

- Sabe, meu filho – principiou ele, assustando-me com sua voz. Há muito tempo eu tinha uma casa. E tinha uma família. E tinha um filho, parecido com você. Eu nunca dei muita atenção pra ele. Eu tinha minhas coisas pra resolver e ele parecia tão independente. Mas um dia ele se foi. Era só uma criança! Mas eu não consegui chorar. Era como um estranho pra mim, porque eu nunca estava por perto. E eu fiquei triste, muito triste, mas por muito tempo eu ainda não conseguia chorar. Não fazia meu tipo. Um dia, eu estava voltando pra casa e, de repente, eu senti uma vontade muito grande de chorar, quase como meu peito fosse se quebrar de tão apertado. Então, eu chorei; e o céu escureceu. E chorou comigo. Desde então nunca mais consegui voltar pra casa. Fico à espera do choro.

Eu acho que à época eu deveria ter chorado. Era o que Velho esperava. Ao contrário, eu sorri. Não era um sorriso de escárnio, mas de esperança. Abaixei, peguei a bola, e fui embora. Ainda olhei uma vez mais para trás e lá estava o Velho, com um olhar triste, como se me dissesse para não abandoná-lo. E antes que eu encontrasse meus amigos, desabou um temporal que durou dias. Quando o tempo clareou, o Velho não estava mais lá.

Por muito tempo, eu não entendi as palavras do Velho. Sequer me apiedava de sua história. Mas um dia, parei pra pensar melhor e então, subitamente, me veio um aperto na garganta, meus olhos se encheram e minha boca gemeu incontrolável. E naquela dia choveu.

Desde então, fico sentado aqui neste banco de praça, à espera de algo que eu sei que nunca virá.

*Este conto está presente no livro “A razão do absurdo”.
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Paulo Olmedo - 
Formado em Letras-Português, pela Universidade Federal do Rio Grande – FURG. Atualmente é mestrando do Programa de Pós-graduação em Letras – Mestrado em História da Literatura, pela mesma instituição. Escreve contos e tem experiência na área do audiovisual e teatro. É dono do blog Vida Irreal e, no momento, aposta no projeto Mini Olmedos.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Literatura de Quinta - com Andréia Pires


Para ela, que não virá
Por Andréia Pires

Chega. De antemão te peço desculpas por não insistir mais em caber no molde. Eu tentei, me esforcei, mesmo. Namorei sério, morei junto, amei para valer, criei a cena adequada, posicionei os personagens, e não. Suportei cobranças das mais descabidas, desnecessárias e antigas, perdi para a frustração e ganhei dela tantas vezes, segui à risca anos de terapia, mas não consegui. O desejo de dar a passagem nunca nasceu em mim. Não é pessoal, não tenho nada contra quem és ou quem te tornarias. Estou certa de que serias alguém decente e realizada apesar da minha proximidade. Tu, do lado de fora, não me assustas. Meu fracasso está no meio do processo. Minhas mãos suam e algo na região da barriga se retorce quando te imagino ganhando o mundo, descolada de mim. Sofro de pavor, de agonia, de medo de morrer com dor, urrando. São pensamentos assim e outros piores que preenchem qualquer espaço vago que haja para a vontade da maternidade.

As vezes sinto que não seria segura a nossa convivência, pelo menos nos primeiros anos. Tenho tido um sonho recorrente, que me atordoa durante os dias que seguem o episódio: sou eu te olhando bem de perto enquanto dormes, meus braços apoiados no limite do berço, sou eu absolutamente feliz te contemplando. O sol da manhã ilumina o quarto e poucos de vento sacodem a cortina de voil branco. De repente, o calor me invade pelas tripas e sobe até a nuca, entendo que estou prestes a perder o controle e embora queira parar, é outra quem me comanda. É meio que possessão, estou em mim, mas me divido com esse duplo meu, uma louca. Grito forte que a outra não ouse, paraliso, e ela me ignora. Desliza as minhas mãos e age, não posso impedir. Apertamos o teu pescoço até que o contorno da tua boca de recém-parida escureça e teu choro acabe. Então, acordo desnorteada, querendo esquecer, mas é impossível. Não és tu o que me assombra, entendes?

Difícil de admitir é que a minha parte insana talvez não more lá, em uma casa onírica. É provável que já tenha se mudado de mala, cuia e chinelinhos para a vida real. Tem sido rotineiro vê-la saltar e complicar as coisas. Faz pouco, surtamos. Repetiram aquela pergunta desgraçada, para a qual não sei dar a resposta que exigem com olhos e sorrisinhos maliciosos, “e quando vem o bebê”, me torturam. Que tanto querem saber, afinal? Ela não virá. Não virá. A informação me sai entre dentes. Não sei de onde tirei a certeza de que, caso viesse a gerar, meu broto seria mulher como eu. Me julgam pelas palavras. Dizem que me referir a ti assim já é meu corpo e minha alma querendo a tua presença aqui. Agora. Reparei que meus ossos, seios e cabelos estão diferentes e reconheço que o relógio biológico avança, pedindo também explicações. Perdoa, filha, por não te deixar me atravessar. Por favor, se não puderes entender, minimamente aceita que meu conflito escancara uma covardia tremenda. De um jeito torto, já te protejo, e quase me convenço que isso, por si, vai dando à luz uma mãe. É a melhor que podes ter. Por hora, sigo na combinação anticoncepcional/camisinhas, com todo meu respeito a ti. E a mim.
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Andréia Pires é jornalista, doutoranda em escrita criativa, mestre em história da literatura e autora do livro de contos De solas e asas. Integra o Coletivo Fita Amarela, colabora todo dia 22 na Revista Samizdat, semanalmente com contos ao jornal Diário Popular e publica o que escreve, em primeira mão, no blog www.desolaseasas.blogspot.com.

quarta-feira, 27 de março de 2013

Literatura de Quinta: com Volmar Camargo Junior



o que há depois, 1: a virtude
Por Volmar Camargo Junior

você vai rir da minha cara quando eu estiver bêbado
quando eu estiver bêbado e triste porque a semana ainda tem mais três dias e eu saio para comprar mais cerveja e meu dinheiro acabou de novo

você vai rir da minha cara porque tento parecer um velho que soube escrever poemas sobre ser bêbado 
e porque você esqueceu como se lê o que eu escrevo 

sem dizer o motivo

você vai rir e vai correr para o banheiro 
como naquela noite e 
como naquela noite

você vai chorar porque quer 
que eu desapareça

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Volmar Camargo Junior, o V., nativo de Cruz Alta, ativo em Rio Grande, é poeta, vendedor de livros. professor não praticante, pai do Dimitri. Escreveu os blogs Um resto de café frio, O balcão das artes impuras e Verbo. Escreve agora o Pragas Urbanas Renitentes. Seu primeiro livro em papel é O Balcão das Artes Impuras (Multifoco, 2012).O poema de V. Camargo Junior integra o projeto Pragas Urbanas Renitentes.

quinta-feira, 21 de março de 2013

Literatura de Quinta - com Giliard Barbosa


De mendigos e Coca-Cola
Por Giliard Barbosa

Um mendigo tosco, sujo e deficiente, senta-se atrás de mim.
E, inquieto, toma seus últimos goles de Coca-Cola
- maldito mundo do capital -
como se jamais fosse reencontrar
tamanho néctar.

Ergue-se e, torto,
verte toscas gotículas
do sacro líquido
por sobre a minha cabeça.

Ao que levanto exaltado,
enquanto ele pede que eu deposite o lixo
em seu devido lugar.

E, nos olhos dos outros
nos gestos dos outros
asco é a palavra latente
como se ele
- caixa de Pandora -
contivesse todos os males do mundo.

E o seu cheiro podre,
seu aspecto podre,
este imenso pedaço podre de nada
o que é?

É a verdade.

Sim, a verdade.
porque, na sua podridão,
ele mantém a pureza
que guarda quem já não tem o que perder.

E eu,
que me visto toscamente melhor,
que cheiro infinitamente melhor,
que sou polido, educado, querido, exemplar...
o que sou?

Um conjunto harmônico de podridões veladas.

Porque com essa roupa,
esse cheiro,
essa educação,
esse sorriso no rosto,
sou apenas o retrato que pintaram do que nunca fui.

Há um descompasse
entre a máscara que me emprestaram
e a fétida, hipócrita, cômoda
carniça
que se esconde sob os meus tecidos.

Parece mentira,
mas toscas gotas de Coca-Cola
hoje
me fizeram pensar.

E me fizeram perceber
que o tosco mendigo sujo deficiente,
em sua casca,
era o meu eu de dentro.

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Giliard Barbosa faz de tudo um pouco: curte corrida, fotografia, gastronomia, e estuda teclado - mas não toca nada. Escreve desde pequeno aquilo que chama de pseudopoemas. Formado em Letras, é professor de espanhol e mestrando em História da Literatura pela Furg, onde estuda relações entre mito e literatura. Além de vir publicando alguns artigos sobre o tema, dá aulas de Literatura em projetos universitários e atua no grupo de teatro O Flato do Gato, dirigido por Geraldo da Silva. Sempre que uma palavra lhe coça os ouvidos, vai para o blog OCasmurro, depósito do arteiro poeta. 

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

COLUNA


Uma pena, Beth...

Um dos programas que mais me dá prazer em assistir é o Saia Justa. Quatro mulheres, cada uma a sua maneira, expõem suas opiniões sobre os assuntos ali debatidos. No caso da reprise que assisti, Mônica Waldvogel, Maitê Proença, Beth Lago e Márcia Tiburi, eram as protagonistas do papo informal e extremamente interessante. Quatro mulheres bem diferentes, justamente por isso o diálogo se faz tão intenso e delicioso.

Mas o que me trouxe a escrever foi a Beth Lago. Sou fascinada pelo humor ácido e sarcástico dela. Adoro suas opiniões curtas e grossas e suas declarações autênticas. No entanto, uma de suas falas me intrigou. Não, na verdade, não fiquei intrigada, fiquei indignada mesmo!

Em um papo sobre o porquê ainda as mulheres desejam, sonham e se enlouquecem por casamento já que conquistaram direitos e blá blá blá, o que culminava, na minha opinião, com a perpetuação da ideia de que homem é pra sustentar a mulher, Márcia Tiburi com sua magistral filosofia, mas criando um abismo entre o lado profissional e o lado pessoal, disse que a mulher não precisava mais casar, pois hoje as portas do mercado profissional estavam abertas à ela, ela poderia ser top model, médica, estilista, professora... entre outras profissões citadas pela filósofa.

O que me deixou pê da vida, foi que Beth Lago, ao escutar a profissão PROFESSORA, como uma das justificativas pra ela não casar e ter independência, disse: professora, não.
E ponto final. Não argumentou. Márcia Tiburi continuou com seus argumentos fantásticos, mas minha cabeça ficou na frase professora, não... E eu perguntou: Professora, não, por quê???

Por que professora, não...
... se foi por uma professora que Beth conseguiu juntar letrinhas para que pudesse ler o suficiente pra estar sempre à frente do seu tempo?
... se foi por meio de uma professora que fez com que Beth pudesse explanar tão bem sobre os mais diversos acontecimentos ao nosso redor no programa Saia Justa?
... se foi por uma professora que fez, implicitamente, com que Beth pudesse ter acesso ao mundo da moda mostrando-lhe que a interpretação dos fatos é condição sine qua non para que estejamos no topo?
... se foi por uma professora que Beth conseguiu ler a Vogue e a Elle sejam elas em qual idioma estiverem?
... se foi por uma professora que Beth inicialmente teve a noção de organização da língua, para que depois pudesse falar qualquer uma delas tão bem?

Realmente, nós professores, não lidamos com glamour, estrelismos e nem com o mundo onírico e fascinante da mídia, mas temos a faca e o queijo nas mãos para que tudo isso seja lido realmente como se deve: com criticidade, racionalidade, livre de ingenuidades e com perspicácia suficiente para que os sujeitos que passarem por nós possam interpretar discursos e, assim, formar opiniões sobre tudo e todos.

Uma pena, Beth, que teu comentário não foi: professor, sim. Apenas por agradecimento aos teus anos de educação formal, que com certeza corroboraram para que sejas brilhante, com raras exceções.



Rita Germano
Professora, leitora, escritora e amadora. Roteirista - não praticante - da sua vida. Mas, para o mundo acadêmico, é mestranda em Educação pelo PPGE- FURG, especialista em Leitura e Produção Textual pela UFPel, licenciada em Letras  pela Furg. Coordenadora do Polo de Apoio Presencial de EaD de São José do Norte e Coordenadora de Projetos na Secretaria Municipal de Educação e Cultura de São José do Norte.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

COLUNA




LER OU NÃO LER, EIS A QUESTÃO

Um dos primeiros ensinamentos que temos quando estudamos literatura em seus níveis básicos é de que a literatura divide-se em três principais gêneros: lírico, épico e dramático. Esta acepção, que remete a Platão e Aristóteles, afirma, basicamente, que a arte literária pode ser dividida em poesia (lírica), narrativa (épica) e, por fim, drama. Porém, sejamos sinceros, nos dias atuais quem efetivamente lê o gênero lírico?

Se voltarmos a pensar em Aristóteles – “base” da teoria acerca da literatura – iremos perceber que sua principal obra, a Poética, disserta, em linhas gerais, sobre a tragédia, que nada mais é do que gênero dramático, considerando-a como o mais elevado modo de produção. Ou seja, o drama gozava, então, de alto prestígio. Com o passar dos séculos, o drama manteve seu status, especialmente com o surgimento de gênios da arte escrita como Shakespeare, Goethe, Brecht, que se utilizavam do gênero dramático para expressar seu talento na arte escrita. Porém, lentamente, devido a drásticas mudanças histórico-sociais, o gênero dramático foi perdendo força, chegando hoje a um patamar secundário, diria, até, de quase esquecimento.

Obviamente, não estou ignorando que o drama é, em essência, uma arte incompleta. Sem dúvida, a arte dramática necessita do Teatro, da representação, para que tenha sua completude. No entanto, não é possível que somente através de seus textos possamos depreender o sentido de uma obra pensada para representação? Teremos que assistir a um Romeu e Julieta, um Édipo-Rei ou um Hamlet para que os conheçamos? Acredito que não. E é essa é a graça do drama. Sua leitura, por mais que “metade do caminho”, pode ser instigante e prazerosa, o que me remete, novamente, à questão acima: por que as pessoas não se interessam pelo gênero dramático?

Há alguns dias, um dos maiores dramaturgos brasileiros, Nelson Rodrigues, teve seu centenário comentado e alardeado. No entanto, poucas pessoas conhecem, efetivamente, a obra rodrigueana. Eu mesmo, confesso, acredito ter lido uma ou duas peças dele, no máximo. E não foi por falta de gosto. A verdade é que o acesso ao gênero dramático também é limitado. Até mesmo na Academia. E também não é por falta de material. Temos uma enormidade de dramaturgos brasileiros de ótima qualidade, desde Oswald de Andrade, Caio Fernando Abreu até Ariano Suassuna. Talvez apenas o último seja reconhecido por sua obra dramática, embora muito por falta de outras manifestações. Assim sendo, uma outra inquietação: por que a produção dramática de muitos (bons) escritores é relegada a um segundo plano?

É inegável que vivemos uma época narrativa. O século XX consolidou o romance e abriu espaço para o conto. Mas isso significa que devemos desprezar as outras formas? Acho que tanto interessante a leitura de um bom drama faz-se necessária e é de longe uma leitura “fácil”. A pergunta que fica é: já leu seu drama hoje ou ainda está esperando Godot?

Dicas de leitura:
  • Édipo Rei, Sófocles
  • Macbeth, William Shakespeare
  • Bodas de Sangue, Federico García Lorca
  • Esperando Godot, Samuel Beckett
  • O Homem e o Cavalo, Oswald de Andrade
  • O Santo e a Porca, Ariano Suassuna






Paulo Olmedo
Formado em Letras-Português, pela Universidade Federal do Rio Grande – FURG. Atualmente é mestrando do Programa de Pós-graduação em Letras – Mestrado em História da Literatura, pela mesma instituição. Escreve contos e tem experiência na área do audiovisual e teatro. É dono do blog Vida Irreal (http://www.pauloolmedo.wordpress.com/).

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Ensaio Aberto com Guto de Souza e Rodrigo Mendes

Nessa terça, dia 18/09 vai rolar um Ensaio Aberto com Guto de Souza e Rodrigo Mendes na loja Mundo Moinho no Figueiras Shopping! É só aparecer e curtir, começa às 20h!





Guto de Souza e Rodrigo Mendes
da Cozinha pro Mundo

Projeto musical que vai do rock gaúcho até o samba de raiz, passando pela mpb e reggae. Formado por Carlos Augusto de Souza que tem como influência o samba de roda e a mpb entre outros estilos musicais brasileiros e por Rodrigo Mendes que tem como influência musical a bossa nova, o rock e o blues. Juntos se uniram para trazer a público suas criações as quais já eram tocadas nas rodas de amigos há algum tempo. Suas letras trazem consigo mensagens e fatos do cotidiano de quem muito ja viveu na bohemia. Um som de levada dançante feito para os verdadeiros amantes do bom gosto musical.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Coluna




Eu leio. Tu lês. Ele lê. Todo mundo lê: a todo instante

Em nossas escolas, ainda hoje, há uma forte tradição de ensino de Língua Portuguesa baseado principalmente na sistematização gramatical, o que diz respeito à prescrição de regras de metalinguagem, o que pouco tem a ver com os objetivos de ensino de língua materna presentes nos Parâmetros Curriculares Nacionais, que descreve: “utilizar diferentes linguagens como meio para produzir, expressar e comunicar suas idéias, interpretar e usufruir das produções culturais em contextos públicos e privados, atendendo diferentes intenções e situações de comunicação” (1997, p.8).

Para tanto, não é necessário que o aluno decore regras gramaticais, e sim que ele tenha contato com a norma culta da língua, mais precisamente com os bens de consumo culturais que vão desde textos publicitários a clássicos da Literatura Brasileira.

Sendo assim, torna-se evidente que a leitura é um fator imprescindível para a interação do aluno ao meio social – é através dela que o mesmo saberá adequar seu vocabulário às diferentes situações do cotidiano – bem como, permite uma compreensão maior dos fatos, da história, da vida. E tem papel de auxiliar de maneira fundamental na formação do indivíduo, ampliando seus horizontes e suas perspectivas.

Segundo PLATÃO & FIORIN (2001) quando se fala em texto ou linguagem normalmente se pensa em texto e linguagem verbais, ou seja, naquela capacidade humana ligada ao pensamento que se concretiza numa determinada língua e se manifesta por palavras. Mas além dessa, há outros tipos de linguagens: a mímica, a pintura, a música, a dança, a fotografia, entre outras. E por meio dessas o homem também expressa seu pensamento, representa o mundo, se comunica e influencia os outros.

Muitos docentes resistem ao fato de levar para as suas aulas outro material que não seja o de seu uso comum. Isso implica mudança e não somente a mudança do material concreto, mas sim da postura enquanto educador, que muitas vezes já está impregnada de paradigmas. Simultaneamente lemos palavras, formas, cores, volumes, planos, luzes, gráficos, movimentos, sons, olhares, gestos, acontecimentos, sendo assim, não se pode restringir a tão vasta, ampla e instigante leitura apenas à linguagem verbal.

O rádio, a televisão, o cinema fornecem modelos daquilo que significa ser homem ou mulher, bem-sucedido ou fracassado, poderoso ou impotente. Tais meios também fornecem o material com que muitas pessoas constroem o seu senso de classe, de etnia, de raça, de nacionalidade, de sexualidade. Definem o que é considerado positivo ou negativo, moral ou imoral, certo ou errado, bonito ou feio. A cultura veiculada pela mídia fornece o material que cria as identidades pelas quais os indivíduos se inserem na sociedade. A cultura em seu sentido mais amplo, é uma forma de atividade que implica alto grau de participação, na qual as pessoas criam sociedades e identidades. A cultura modela os indivíduos evidenciando e cultivando suas potencialidades e capacidades de fala, ação e criatividade

As pessoas passam um tempo considerável assistindo a televisão, ouvindo rádio, lendo jornais e revistas, participando dessas e de outras formas da cultura veiculada pelos meios de comunicação. Sendo assim, trata-se de uma cultura que passou a dominar a vida cotidiana, servindo de pano de fundo sedutor para qual convergem às atenções e o comportamento do público/ receptor.

Sabendo de tudo isso é indispensável que se pense a leitura não apenas como decodificação de signos, mas sim que se pense em uma leitura mais ampla. Lemos o mundo. Lemos as cores. Lemos as músicas.Lemos os gestos. Lemos os filmes. Lemos as propagandas.Lemos o Tufão e a Carminha. Lemos Gabriela – cravo e canela. Lemos o horário político. Lemos. Lemos. Lemos. Lemos. A todo e qualquer instante.

Então, por que, nós professores reduzimos e fragmentamos a leitura apenas ao texto verbal?

Fica então a pergunta.

Dica:
  • A cultura da Mídia, Douglas Kellner


Rita Germano
Professora, leitora, escritora e amadora. Roteirista - não praticante - da sua vida. Mas, para o mundo acadêmico, é mestranda em Educação pelo PPGE- FURG, especialista em Leitura e Produção Textual pela UFPel, licenciada em Letras  pela Furg. Coordenadora do Polo de Apoio Presencial de EaD de São José do Norte e Coordenadora de Projetos na Secretaria Municipal de Educação e Cultura de São José do Norte.